Lusitana-ICTORI “Pinta Amarela” (1927-2026):
Memórias do património industrial do Alto Minho
· Evocamos nesta singela crónica José González Garcia, um ilustre espanhol, oriundo de Tui na vizinha Galiza, merecedor de um lugar privilegiado na nossa memória coletiva ·
No primeiro quartel do século XX (1922), o pai de José González Garcia (José González González) possuía em Tui uma pequena indústria de cal, onde chegaram a laborar inúmeras mulheres, que ficaram conhecidas como “as barriqueiras”.
Não obstante, em 1927, José González González funda em Valença do Minho uma das suas mais importantes fábricas: Lusitana-ICTORI - comummente denominada “Pinta Amarela”, a qual se dedicava ao fabrico de alpercatas (calçado em que a sola, de corda ou de borracha, se ajusta ao pé por meio de tiras de couro ou de pano) - a firma contava com dois ou três operários e com todos os membros da família.
No entanto, a empresa diversificou os seus produtos ao longo da diacronia:
1935, inicia-se a produção de botas de borracha destinadas à labuta nos campos, instando o incremento do número de operários (aproximadamente nove);
1943, a fábrica passa também a produzir pasta de borracha, destinada à recauchutagem;
1947, o filho José González Garcia entra para a empresa, tendo antes viajado para a Alemanha com a finalidade de obter conhecimentos profícuos para a atividade da fábrica;
1950, a fábrica dedica-se à produção de acessórios para a indústria automóvel;
1960, a fábrica é alvo de uma grande renovação no parque de máquinas, cuja finalidade é fabricar calçado prensado e botas especiais para a pesca e frio industrial - é nos anos 60 que ocorrem mudanças estruturais, inaugurando-se um pavilhão de três pisos e rés do chão, em betão armado, destinado a armazéns, refeitório e cantina para os operários;
1970, ocorre um forte investimento em prensas de grandes dimensões, dando resposta à demanda do setor das pescas, quer a nível nacional e internacional, fabricando numerosas peças e soluções ideais satisfazendo diversas necessidades.
Entre a vasta panóplia de produtos do seu portfólio, destacam-se os seguintes:
Aparelhagens em borracha para equipamentos de pesca; tapetes para vacarias; artigos para a construção civil; botas desportivas e marítimas.
Um dos momentos mais altos da fábrica deu-se quando começou a produzir calçado para o Exército Português (Guerra do Ultramar 1961-1974), chegando a ser fabricados mensalmente noventa mil pares de botas. Porém, quando ocorreu o 25 de abril de 1974, o Estado Português ficou a dever à firma cerca de 40.000 contos. Essa contingência provocou grandes preocupações, nomeadamente com a necessidade de continuar a cumprir com os salários dos operários e com as obrigações relativas aos fornecedores, originando a contratação de créditos, chegando a firma a pagar à banca uma taxa de juro de 29% - para ultrapassar a crise, foi criada uma sociedade familiar.
É certo que a fábrica “Pinta Amarela” conheceu o seu apogeu com José González Garcia, chegando a contar com uma força de trabalho que excedia os 180 operários.
A fábrica “Pinta Amarela” ocupava uma área coberta de 7.500 metros quadrados, localizando-se na Rua das Antas, distando cerca de um quilómetro da vizinha Galiza.
José González Garcia comandou os destinos da fábrica desde meados do século XX até 1976/7, altura em que delegou os destinos da firma ao seu filho, Carlos González Troncoso.
Em 2004, a fábrica “Pinta Amarela” ainda laborava, contando com quarenta e oito operários. Nesse ano, ocorreu um incêndio na unidade industrial que chegou a causar pânico, no entanto, tudo se resolveu sem grandes prejuízos, como deu nota o Jornal de Notícias, em 14 de julho Incêndio em antiga fábrica de borracha assusta vizinhos
Todavia, a fábrica “Pinta Amarela” pouco mais duraria, entrando em absoluto declínio, encerrando as suas portas de forma efetiva.
O complexo fabril tornou-se devoluto, degradando-se de ano para ano, até que foi demolido recentemente, à exceção da chaminé, parte da frontaria do edificado, bem como do depósito da água.
Por essa via, reconhecendo o papel importantíssimo que essa fábrica desempenhou no concelho de Valença do Minho, bem como os seus contributos para a economia nacional, não poderíamos deixar de solicitar à Câmara Municipal de Valença do Minho que tudo faça no sentido de preservar os poucos elementos que restam desse património industrial, cujo valor para as comunidades locais e para a memória coletiva é inquestionável.
Recordar a “Pinta Amarela”, não é um exercício ligeiro, é recordar o arrojo do Homem, o aperfeiçoar da ciência e da técnica, é trazer a lume um espanhol - José González Garcia - (símbolo de fraternidade - união e cultura) que para além de um grande industrial foi um português de corpo e alma, não tivesse dedicado parte da sua vida à filatelia, às coleções de selos de Portugal, granjeando as maiores admirações em inúmeros certames nacionais e internacionais, conquistando prémios nunca antes atribuídos a um português.
O património industrial é como a própria vida, transfigura-se, adquire novas funções, mas encerra sempre os seus valores. Logo, seria uma atitude de nobreza a autarquia valenciana dedicar esforços na preservação de tão fecunda memória coletiva, sob pena de descaracterizarmos os nossos territórios, esquecendo de onde vimos e perdendo o sentido de para aonde vamos. Lembremos, por exemplo, que aquando da fundação de tão arrojada firma, as gentes de Valença do Minho e de Portugal de modo geral, andavam descalças, não existiam as burguesias da atualidade. Além disso, pouco mais se vislumbrava para além do horizonte rural. Muitas famílias encontravam o seu sustento nessa fábrica, foram gerações de operários que por lá passaram, cujas vidas misturaram-se com a existência daquela fábrica.
A imagem da fábrica é coeva (31.03.2026), deveria mostrar policromia. Porém, decidimos conferir-lhe uma atmosfera pesada, porque quando algo que nasceu para o nosso país morre, também morre uma parte de todos nós.
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