Fábrica Pachancho:
Memórias do património industrial de Braga
Neste breve artigo, evoca-se António Gomes do Vale Peixoto (1890-1958), mais conhecido por “Pachancho” - alcunha que ganhou ainda muito jovem e que iria ecoar nos maiores altares da ciência e da técnica do seu tempo.
• Trata-se de evocar um elemento fundamental do património industrial da cidade de Braga, digno de uma vénia - tal foi a sua magnitude e afoiteza - digno de um museu ou centro de interpretação na urbe •
Aficionado do mundo automóvel, António Peixoto desde muito cedo se deixou deslumbrar pelo roncar dos escapes e pelas maravilhas da ciência e da técnica em que se traduziam os automóveis do seu tempo.
Esse insigne bracarense de gema, nascido na freguesia de Maximinos, era originário de uma família humilde, pelo que chegou mesmo a ser motorista da Dona Maria Rego, uma mulher milionária e extravagante conhecida por “Dona Chica” - cujo palácio é sobejamente conhecido de todos na freguesia de Palmeira - e que tinha quatro automóveis e três motoristas, entre eles António Peixoto, que alcançou o cargo de “motorista-chefe” e de mecânico.
• Em Portugal, na alvorada do século XX, começavam-se a ver os primeiros automóveis e camionetas a circular nas estradas, cujo estado era lastimoso, o que originava sérios problemas mecânicos, com avarias constantes, ou o desgaste acelerado e prematuro dos componentes •
Não obstante, solucionar esses problemas não era fácil, sobretudo pela falta de componentes de reposição. Nesse sentido, António Peixoto vislumbra nesse hiato de tempo a oportunidade de ser ele a resolver o berbicacho - produzindo os componentes.
O seu amor e fascínio pelos automóveis fizeram dele alguém que marcou de forma indelével a história industrial bracarense e nacional - homem dotado de um espírito arrojado, inovador e vanguardista - encontra-se na génese da grandiosa “Fábrica Pachancho” - cujo destino não tardaria a parir.
É esse mesmo amor pelos automóveis e pela mecânica que o levam a contrair um empréstimo junto de Dona Chica, a quem confessa o sonho de se estabelecer nessa área e, naturalmente, Dona Chica não defraudou as expectativas do seu renomeado chauffeur.
António Peixoto, em 20 de outubro de 1920, inaugura a sua atividade na rua de Santo André, com uma oficina de serralharia mecânica que, inicialmente, para além de António Peixoto, operava com sete colaboradores: dois torneiros, três serralheiros, um ajudante e um aprendiz.
“(...) O mais enferrujado, o mais gasto e esclerótico dos motores saía das suas mãos com um ronronar suave e feliz”.
Todavia, a sua atividade não tardaria a diversificar-se, passando também a dedicar-se à reparação de automóveis, ao fabrico de acessórios em pequena escala, entre muitos outros produtos. Após um ou dois anos, da sua atividade passa também a fazer parte o fabrico de motores de explosão, particularmente, aplicados a bombas de rega, granjeando enorme reputação e procura no mercado. Esse sucesso conduziu-o a um conjunto de premências, sobretudo a de ampliar a sua área de produção.
No primeiro quartel do século XX, a Misericórdia de Braga iniciou em Infias a construção de pavilhões (enfermarias) que integrariam o novo hospital, porém, a conjuntura afigurou-se adversa, nomeadamente com o eclodir da I Grande Guerra Mundial, não se chegando a cumprir tão nobre desígnio.
No entanto, como reza o ditado “não há fartura que sempre dure, nem fome que nunca acabe”, pelo que António Peixoto compra esses pavilhões em hasta pública, para ali instalar aquela que se viria a denominar - Fábrica Nacional de Pistões Pachancho (1947) - criando verdadeiras linhas de montagem, onde se passam a fabricar em série peças para os automóveis: pistões em alumínio e ferro - segmentos de compressão - cavilhas para pistões - camisas para cilindros - culassas, válvulas e toda uma vasta panóplia de outros componentes para motores.
O novo complexo fabril estava integrado numa área total de 80 mil metros quadrados, ocupando 25 mil metros quadrados. Em meados do século XX o complexo industrial contava com algumas centenas de trabalhadores e possuía uma central termoelétrica privativa, para a eventualidade da ocorrência de alguma interrupção no fornecimento de energia elétrica.
A Fábrica Pachancho contemplava fundição, fundição injetada (uma inovação), moldação, máquinas pneumáticas, prensas de fricção, prensas de corte, estampagem, tornos mecânicos - fresadoras, mandriladoras, retificadoras, furadoras radiais, mesas de ensaio, laboratório de ensaio, entre outros.
Além disso, fabricava correntes de rolos para bicicletas, motores a 2 tempos, como o Micromotor (1948), cujos dois primeiros protótipos foram aplicados em bicicletas que participaram numa volta ao Minho, resultando numa prova de resistência que permitiu aperfeiçoar os engenhos - não obstante, somente em 1951 é que António Peixoto obtém a licença oficial para a sua produção.
Inicialmente, a Fábrica Pachancho equipou diversas montagens, como a “Vilar-Pachancho” ou a “Famel-Pachancho”.
Mais tarde, em 1954, António Peixoto e o seu filho Zacarias Peixoto, fundam uma sociedade com António Carvalho de Araújo, com o objetivo de desenvolverem a montagem de ciclomotores na cidade de Braga - a “Cinal-Pachancho” - Consórcio de Indústrias Metalomecânicas Nacionais (Cinal), Lda.
Em 1955, fruto dessa união de sinergias, são lançados cinco modelos de motorizadas, batizadas com os nomes de montanhas importantes.
Entre uma gama de produtos afamados, encontravam-se os amortecedores hidráulicos, muito procurados internacionalmente.
A Fábrica Pachancho participou em muitos certames nacionais e internacionais, pelo que foi inúmeras vezes distinguida, como por exemplo na Grande Exposição Industrial Portuguesa, em 1932, com dois diplomas de Medalha de Ouro e um de Prata.
Há, todavia, rumores de que em tempos, António Peixoto, tentou obter um alvará da Câmara Municipal de Braga para o fabrico de automóveis no seu complexo industrial - o que, a ter sucedido, traria uma verdadeira mudança de paradigma.
• António Peixoto era de tal modo inventivo que, no termo da II Grande Guerra Mundial (1939-1945), fabricou uma peça para a máquina de projeção do Teatro Circo, que na época se encontrava esgotada no mercado nacional e que a Alemanha não era capaz de fornecer com a celeridade necessária - tal feito, permitiu que nunca se deixassem de dar espetáculos cinematográficos no Teatro Circo •
António Peixoto, esse grande embaixador da cidade de Braga, cujo nome projetou além-fronteiras, faleceu na sua residência, na rua de Santo André, em 31 de março de 1958 - após a sua morte, a empresa sofreu as suas metamorfoses, porém não desapareceu.
• Ao longo da Guerra do Ultramar a Fábrica Pachancho forneceu ao Exército Nacional pistões, cavilhas, camisas e segmentos •
Em boa verdade, os mercados alteraram-se devido à concorrência de novas empresas, pelo que a Fábrica Pachancho abandonou o fabrico de motociclos, passando a focar-se na produção de máquinas agrícolas (motoganhadeiras e motocultivadores) e componentes para automóveis - área essa que nunca abandonou.
Em 1971, é fundada a Fábrica Nacional de Segmentos, Lda., que perscrutava no setor automóvel um mercado em franca expansão.
Em 1982, José Marques Rodrigues, que em meados dos anos 70 toma as rédeas da empresa, diversificou a produção e tomou novas iniciativas, entre elas a criação de unidades autónomas e um laboratório químico para desenvolvimento de novas ligas metálicas, como uma liga de ferro dúctil, aplicada à produção de camisas centrifugadas. A partir desse momento, o grupo começa a fornecer camisas para motores de alta competição como os da F1 e indústria aeronáutica.
Em 1984, é fundado o Grupo Pachancho SGPS, englobando a FPS - Fábrica Portuguesa de Segmentos Lda.; a ALBRA - Indústria de Alumínios, Lda.; a IMP - Indústrias Metalúrgicas Pachancho, Lda.; a SIMSEG - Componentes para Motores, Lda.; a IMETIM - empresa imobiliária e a Darton Internacional.







