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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Fábrica Pachancho:

Memórias do património industrial de Braga

 

Neste breve artigo, evoca-se António Gomes do Vale Peixoto (1890-1958), mais conhecido por “Pachancho” - alcunha que ganhou ainda muito jovem e que iria ecoar nos maiores altares da ciência e da técnica do seu tempo.

• Trata-se de evocar um elemento fundamental do património industrial da cidade de Braga, digno de uma vénia - tal foi a sua magnitude e afoiteza - digno de um museu ou centro de interpretação na urbe • 

Aficionado do mundo automóvel, António Peixoto desde muito cedo se deixou deslumbrar pelo roncar dos escapes e pelas maravilhas da ciência e da técnica em que se traduziam os automóveis do seu tempo.

Esse insigne bracarense de gema, nascido na freguesia de Maximinos, era originário de uma família humilde, pelo que chegou mesmo a ser motorista da Dona Maria Rego, uma mulher milionária e extravagante conhecida por “Dona Chica” - cujo palácio é sobejamente conhecido de todos na freguesia de Palmeira - e que tinha quatro automóveis e três motoristas, entre eles António Peixoto, que alcançou o cargo de “motorista-chefe” e de mecânico.

• Em Portugal, na alvorada do século XX, começavam-se a ver os primeiros automóveis e camionetas a circular nas estradas, cujo estado era lastimoso, o que originava sérios problemas mecânicos, com avarias constantes, ou o desgaste acelerado e prematuro dos componentes •

Não obstante, solucionar esses problemas não era fácil, sobretudo pela falta de componentes de reposição. Nesse sentido, António Peixoto vislumbra nesse hiato de tempo a oportunidade de ser ele a resolver o berbicacho - produzindo os componentes.

O seu amor e fascínio pelos automóveis fizeram dele alguém que marcou de forma indelével a história industrial bracarense e nacional - homem dotado de um espírito arrojado, inovador e vanguardista - encontra-se na génese da grandiosa “Fábrica Pachancho” - cujo destino não tardaria a parir.

É esse mesmo amor pelos automóveis e pela mecânica que o levam a contrair um empréstimo junto de Dona Chica, a quem confessa o sonho de se estabelecer nessa área e, naturalmente, Dona Chica não defraudou as expectativas do seu renomeado chauffeur.

António Peixoto, em 20 de outubro de 1920, inaugura a sua atividade na rua de Santo André, com uma oficina de serralharia mecânica que, inicialmente, para além de António Peixoto, operava com sete colaboradores: dois torneiros, três serralheiros, um ajudante e um aprendiz. 

(...) O mais enferrujado, o mais gasto e esclerótico dos motores saía das suas mãos com um ronronar suave e feliz”.

Todavia, a sua atividade não tardaria a diversificar-se, passando também a dedicar-se à reparação de automóveis, ao fabrico de acessórios em pequena escala, entre muitos outros produtos. Após um ou dois anos, da sua atividade passa também a fazer parte o fabrico de motores de explosão, particularmente, aplicados a bombas de rega, granjeando enorme reputação e procura no mercado. Esse sucesso conduziu-o a um conjunto de premências, sobretudo a de ampliar a sua área de produção.

No primeiro quartel do século XX, a Misericórdia de Braga iniciou em Infias a construção de pavilhões (enfermarias) que integrariam o novo hospital, porém, a conjuntura afigurou-se adversa, nomeadamente com o eclodir da I Grande Guerra Mundial, não se chegando a cumprir tão nobre desígnio.

No entanto, como reza o ditado “não há fartura que sempre dure, nem fome que nunca acabe”, pelo que António Peixoto compra esses pavilhões em hasta pública,  para ali instalar aquela que se viria a denominar  - Fábrica Nacional de Pistões Pachancho (1947) - criando verdadeiras linhas de montagem, onde se passam a fabricar em série peças para os automóveis: pistões em alumínio e ferro - segmentos de compressão - cavilhas para pistões - camisas para cilindros - culassas, válvulas e toda uma vasta panóplia de outros componentes para motores.

O novo complexo fabril estava integrado numa área total de 80 mil metros quadrados, ocupando 25 mil metros quadrados. Em meados do século XX o complexo industrial contava com algumas centenas de trabalhadores e possuía uma central termoelétrica privativa, para a eventualidade da ocorrência de alguma interrupção no fornecimento de energia elétrica.

A Fábrica Pachancho contemplava fundição, fundição injetada (uma inovação), moldação, máquinas pneumáticas, prensas de fricção, prensas de corte, estampagem, tornos mecânicos - fresadoras, mandriladoras, retificadoras, furadoras radiais, mesas de ensaio, laboratório de ensaio, entre outros.

Além disso, fabricava correntes de rolos para bicicletas, motores a 2 tempos, como o Micromotor (1948), cujos dois primeiros protótipos foram aplicados em bicicletas que participaram numa volta ao Minho, resultando numa prova de resistência que permitiu aperfeiçoar os engenhos - não obstante, somente em 1951 é que António Peixoto obtém a licença oficial para a sua produção.

Inicialmente, a Fábrica Pachancho equipou diversas montagens, como a “Vilar-Pachancho” ou a “Famel-Pachancho”.

Mais tarde, em 1954, António Peixoto e o seu filho Zacarias Peixoto, fundam uma sociedade com António Carvalho de Araújo, com o objetivo de desenvolverem a montagem de ciclomotores na cidade de Braga - a “Cinal-Pachancho” - Consórcio de Indústrias Metalomecânicas Nacionais (Cinal), Lda.

Em 1955, fruto dessa união de sinergias, são lançados cinco modelos de motorizadas, batizadas com os nomes de montanhas importantes.

Entre uma gama de produtos afamados, encontravam-se os amortecedores hidráulicos, muito procurados internacionalmente.

A Fábrica Pachancho participou em muitos certames nacionais e internacionais, pelo que foi inúmeras vezes distinguida, como por exemplo na Grande Exposição Industrial Portuguesa, em 1932, com dois diplomas de Medalha de Ouro e um de Prata.

Há, todavia, rumores de que em tempos, António Peixoto, tentou obter um alvará da Câmara Municipal de Braga para o fabrico de automóveis no seu complexo industrial - o que, a ter sucedido, traria uma verdadeira mudança de paradigma.

• António Peixoto era de tal modo inventivo que, no termo da II Grande Guerra Mundial (1939-1945), fabricou uma peça para a máquina de projeção do Teatro Circo, que na época se encontrava esgotada no mercado nacional e que a Alemanha não era capaz de fornecer com a celeridade necessária - tal feito, permitiu que nunca se deixassem de dar espetáculos cinematográficos no Teatro Circo •

António Peixoto, esse grande embaixador da cidade de Braga, cujo nome projetou além-fronteiras, faleceu na sua residência, na rua de Santo André, em 31 de março de 1958 - após a sua morte, a empresa sofreu as suas metamorfoses, porém não desapareceu.

• Ao longo da Guerra do Ultramar a Fábrica Pachancho forneceu ao Exército Nacional pistões, cavilhas, camisas e segmentos •

Em boa verdade, os mercados alteraram-se devido à concorrência de novas empresas, pelo que a Fábrica Pachancho abandonou o fabrico de motociclos, passando a focar-se na produção de máquinas agrícolas (motoganhadeiras e motocultivadores) e componentes para automóveis - área essa que nunca abandonou.

Em 1971, é fundada a Fábrica Nacional de Segmentos, Lda., que perscrutava no setor automóvel um mercado em franca expansão.

Em 1982, José Marques Rodrigues, que em meados dos anos 70 toma as rédeas da empresa, diversificou a produção e tomou novas iniciativas, entre elas a criação de unidades autónomas e um laboratório químico para desenvolvimento de novas ligas metálicas, como uma liga de ferro dúctil, aplicada à produção de camisas centrifugadas. A partir desse momento, o grupo começa a fornecer camisas para motores de alta competição como os da F1 e indústria aeronáutica.

Em 1984, é fundado o Grupo Pachancho SGPS, englobando a FPS - Fábrica Portuguesa de Segmentos Lda.; a ALBRA - Indústria de Alumínios, Lda.; a IMP - Indústrias Metalúrgicas Pachancho, Lda.; a SIMSEG - Componentes para Motores, Lda.; a IMETIM - empresa imobiliária e a Darton Internacional.

Património Industrial do Alto Minho:

Oportunidades perdidas

 

A região do Alto Minho não dedica o devido valor ao seu património industrial. Nos últimos anos têm surgido algumas iniciativas, pulverizadas aqui e ali, partindo sobretudo de Associações Culturais, como é o caso do Centro de Estudos Regionais de Viana do Castelo que, em 2023, juntamente com a Associação Portuguesa para o Património Industrial, promoveram o I Encontro Sobre o Património Industrial do Alto Minho - (ver programa aqui)

Ainda em 2023, a freguesia de Alvarães, em Viana do Castelo, inaugurou a Rota da Cerâmica. Tratou-se de um evento sobremaneira importante que visa dinamizar uma história rica associada à indústria cerâmica, particularmente, ao fabrico de telhas, contemplando os fornos telheiros bem como as próprias fábricas desativadas, como é o caso da Jerónimo Pereira Campos. Alvarães contempla um dos mais ricos coutos mineiros em caulino (barro branco), daí a sua longa história associada ao fabrico de produtos cerâmicos de elevadíssima qualidade.

A criação da Rota da Cerâmica reveste-se de particular relevo, atendendo ao potencial que representa para a dinamização económica e social da região, onde o turismo industrial se assume como uma verdadeira âncora.

Não obstante, o Minho, e o Alto Minho em particular, gozam de uma história secular associada aos engenhos hidráulicos - sejam moinhos para produção de farinha, sejam engenhos ligados ao setor das madeiras (serrações), sejam engenhos ligados à produção de azeite, em muitos casos valorizados e divulgados por Associações Culturais locais, ou por privados empreendedores, como é o caso dos Moinhos de Bade, em Cerdal, Valença do Minho e, em muito menor escala, pelas próprias autarquias.

Portugal, ao contrário de alguns países da Europa, como a Inglaterra, a França ou a Alemanha, não conheceu uma efetiva Revolução Industrial stricto sensu, quando muito, conheceu uma revolução industriosa, que se manifestou de forma aleatória pelo território nacional.

Todavia, apesar de tudo, Portugal contempla um vastíssimo e riquíssimo património industrial, inclusive na região do Alto Minho, uma das regiões que, até há bem poucos anos, era uma das mais subdesenvolvidas do país. 

Não obstante, ainda que a região procure de forma progressiva e legitima a sua afirmação na economia nacional, não deixa de ser importante olhar para o futuro com os olhos postos no seu vasto património cultural.

Há, quanto a mim, entraves que condicionam sobremaneira os cidadãos que, pro bono, dedicam esforços diversos para valorizar esse património cultural.

As autarquias parecem padecer de insensibilidade, de incapacidade para valorizar o património industrial existente nos seus territórios. Essa realidade é subsidiada pela falta de equipas multidisciplinares, bem como pela falta de uma visão estratégica de médio e longo prazo. 

Hodiernamente, a criação de sinergias é fundamental para fomentar a coesão territorial, pelo que o património industrial se afigura como elemento potenciador desse desiderato. Ao longo dos últimos anos são inúmeras as ações que encetei no sentido de envolver algumas autarquias na resolução de problemas ou iniciativas conexas com o nosso património industrial. Todavia, quer-me parecer que alguns autarcas e executivos, ao contrário do que proclamam, agem com desprezo e sobranceria, adiando reuniões, falhando a compromissos, etc., isso não pode suceder, sob pena de desacreditarmos nas entidades políticas que, de per si, são conotadas com a demagogia e a arrogância.

No decorrer dos últimos anos, questiono-me se vale a pena dedicar parte da minha vida a esta causa, uma vez que parece ser uma batalha inglória e perversa.

É, também, curiosa a forma como alguns autarcas se manifestam face a reptos que se lançam, cujo fim maior é o benefício coletivo. Porém, quiçá pela natureza que porventura os carateriza, julguem na sua pequenez que auspiciamos alguma espécie de contrapartida que não a própria satisfação pessoal. 

Talvez sejamos pequenos devido aos horizontes curtos que projetamos, urge ver mais adiante, urge erguer Portugal e, um país sem uma dinâmica cultural forte, não pode esperar muito do porvir.

A condição sine qua non, é a mudança radical de paradigma, o diálogo franco e aberto, em nome do coletivo.

Não podemos continuar na mentira, como a mentira de 2017, que vaticinava a criação do Centro Interpretativo dedicado a Gustave Eiffel, em Viana do Castelo, ou as comunicações eletrónicas enviadas a várias autarquias da região, que se remetem ao silêncio.

Assim, não, são oportunidades que se perdem, e que naturalmente beneficiariam as comunidades - o coletivo - urge deixar de alimentar a indiferença, a altivez e a mentira, sob pena de vermos a crescer os velhos fantasmas do passado, que teimam em surgir em pleno século XXI, cuja responsabilidade recai, grosso modo, sob aqueles que nos “governam”.

 

 

Lusitana-ICTORI “Pinta Amarela” (1927-2026):

Memórias do património industrial do Alto Minho

 

· Evocamos nesta singela crónica José González Garcia, um ilustre espanhol, oriundo de Tui na vizinha Galiza, merecedor de um lugar privilegiado na nossa memória coletiva ·

No primeiro quartel do século XX (1922), o pai de José González Garcia (José González González) possuía em Tui uma pequena indústria de cal, onde chegaram a laborar inúmeras mulheres, que ficaram conhecidas como “as barriqueiras”. 

Não obstante, em 1927, José González González funda em Valença do Minho uma das suas mais importantes fábricas: Lusitana-ICTORI - comummente denominada “Pinta Amarela”, a qual se dedicava ao fabrico de alpercatas (calçado em que a sola, de corda ou de borracha, se ajusta ao pé por meio de tiras de couro ou de pano) - a firma contava com dois ou três operários e com todos os membros da família.

No entanto, a empresa diversificou os seus produtos ao longo da diacronia:

1935, inicia-se a produção de botas de borracha destinadas à labuta nos campos, instando o incremento do número de operários (aproximadamente nove);

1943, a fábrica passa também a produzir pasta de borracha, destinada à recauchutagem;

1947, o filho José González Garcia entra para a empresa, tendo antes viajado para a Alemanha com a finalidade de obter conhecimentos profícuos para a atividade da fábrica;

1950, a fábrica dedica-se à produção de acessórios para a indústria automóvel;

1960, a fábrica é alvo de uma grande renovação no parque de máquinas, cuja finalidade é fabricar calçado prensado e botas especiais para a pesca e frio industrial - é nos anos 60 que ocorrem mudanças estruturais, inaugurando-se um pavilhão de três pisos e rés do chão, em betão armado, destinado a armazéns, refeitório e cantina para os operários;

1970, ocorre um forte investimento em prensas de grandes dimensões, dando resposta à demanda do setor das pescas, quer a nível nacional e internacional, fabricando numerosas peças e soluções ideais satisfazendo diversas necessidades.

Entre a vasta panóplia de produtos do seu portfólio, destacam-se os seguintes:

Aparelhagens em borracha para equipamentos de pesca; tapetes para vacarias; artigos para a construção civil; botas desportivas e marítimas.

Um dos momentos mais altos da fábrica deu-se quando começou a produzir calçado para o Exército Português (Guerra do Ultramar 1961-1974), chegando a ser fabricados mensalmente noventa mil pares de botas. Porém, quando ocorreu o 25 de abril de 1974, o Estado Português ficou a dever à firma cerca de 40.000 contos. Essa contingência provocou grandes preocupações, nomeadamente com a necessidade de continuar a cumprir com os salários dos operários e com as obrigações relativas aos fornecedores, originando a contratação de créditos, chegando a firma a pagar à banca uma taxa de juro de 29% - para ultrapassar a crise, foi criada uma sociedade familiar.

É certo que a fábrica “Pinta Amarela” conheceu o seu apogeu com José González Garcia, chegando a contar com uma força de trabalho que excedia os 180 operários.

A fábrica “Pinta Amarela” ocupava uma área coberta de 7.500 metros quadrados, localizando-se na Rua das Antas, distando cerca de um quilómetro da vizinha Galiza.

José González Garcia comandou os destinos da fábrica desde meados do século XX até 1976/7, altura em que delegou os destinos da firma ao seu filho, Carlos González Troncoso.

Em 2004, a fábrica “Pinta Amarela” ainda laborava, contando com quarenta e oito operários. Nesse ano, ocorreu um incêndio na unidade industrial que chegou a causar pânico, no entanto, tudo se resolveu sem grandes prejuízos, como deu nota o Jornal de Notícias, em 14 de julho Incêndio em antiga fábrica de borracha assusta vizinhos

Todavia, a fábrica “Pinta Amarela” pouco mais duraria, entrando em absoluto declínio, encerrando as suas portas de forma efetiva. 

O complexo fabril tornou-se devoluto, degradando-se de ano para ano, até que foi demolido recentemente, à exceção da chaminé, parte da frontaria do edificado, bem como do depósito da água.

Por essa via, reconhecendo o papel importantíssimo que essa fábrica desempenhou no concelho de Valença do Minho, bem como os seus contributos para a economia nacional, não poderíamos deixar de solicitar à Câmara Municipal de Valença do Minho que tudo faça no sentido de preservar os poucos elementos que restam desse património industrial, cujo valor para as comunidades locais e para a memória coletiva é inquestionável. 

Recordar a “Pinta Amarela”, não é um exercício ligeiro, é recordar o arrojo do Homem, o aperfeiçoar da ciência e da técnica, é trazer a lume um espanhol - José González Garcia - (símbolo de fraternidade - união e cultura) que para além de um grande industrial foi um português de corpo e alma, não tivesse dedicado parte da sua vida à filatelia, às coleções de selos de Portugal, granjeando as maiores admirações em inúmeros certames nacionais e internacionais, conquistando prémios nunca antes atribuídos a um português.

O património industrial é como a própria vida, transfigura-se, adquire novas funções, mas encerra sempre os seus valores. Logo, seria uma atitude de nobreza a autarquia valenciana dedicar esforços na preservação de tão fecunda memória coletiva, sob pena de descaracterizarmos os nossos territórios, esquecendo de onde vimos e perdendo o sentido de para aonde vamos. Lembremos, por exemplo, que aquando da fundação de tão arrojada firma, as gentes de Valença do Minho e de Portugal de modo geral, andavam descalças, não existiam as burguesias da atualidade. Além disso, pouco mais se vislumbrava para além do horizonte rural. Muitas famílias encontravam o seu sustento nessa fábrica, foram gerações de operários que por lá passaram, cujas vidas misturaram-se com a existência daquela fábrica.

A imagem da fábrica é coeva (31.03.2026), deveria mostrar policromia. Porém, decidimos conferir-lhe uma atmosfera pesada, porque quando algo que nasceu para o nosso país morre, também morre uma parte de todos nós.

Fábrica Confiança (Braga) 1894-2026:

Subsídios para a memória do nosso património industrial

 

A Fábrica Confiança foi fundada na Rua Nova de Santa Cruz, em 1894, por Manuel dos Santos Pereira e pelo seu cunhado, Rosalvo da Silva Almeida. 

É surpreendente testemunhar o arrojo desses dois empreendedores, que naquela época eram muito jovens (um tinha 21 e o outro 26 anos), porém, não deixaram de abraçar um sonho que tornaram realidade, apesar de nenhum deles ter experiência no setor.

Ao longo do século XIX e até meados do século XX, a freguesia de S. Victor detinha entre a Rua do Taxa e a Rua Nova de Santa Cruz, o que se poderia denominar de “cinturão industrial” da cidade de Braga que, grosso modo, contemplava esse eixo. Ali existiam e laboravam inúmeras indústrias, umas mais mecanizadas do que outras, destacando-se, por exemplo, a Social Bracarense, a Taxa, a Industrial e, um pouco mais afastada desse eixo, a também afamada Pachancho. Esta seria a primeira fase de industrialização da cidade de Braga, que mantinha no seu portfólio algumas indústrias de elevado gabarito, de prestígio nacional e internacional.

A Fábrica Confiança, hodiernamente assim denominada, designava-se “Saboaria e Perfumaria Confiança”.  

Os fundadores investiram no novo projeto uns módicos 10 contos de reis, dando início à produção de sabão, sabonetes e perfumarias. No alvor desse arrojado projeto eram fabricadas 1000 caixas de sabão por mês. 

A Fábrica Confiança seguia no bom caminho e, anos mais tarde, na viragem da década de 10 para a década de 20 do século XX, impunha-se a construção de um novo complexo fabril, cuja finalidade passava por responder às exigências de um novo paradigma de desenvolvimento que ambos os fundadores preconizavam. Nessa esteira, os dois sócios decidiram agremiar-se ao amigo e capitalista Domingos José Afonso, que dá à firma um ímpeto imprescindível, pelo que, em 1920, deliberaram constituir uma Sociedade Anónima, acreditando a Fábrica Confiança.

No ano seguinte, na senda de uma nova era, os edifícios primitivos foram adaptados e incorporados no projeto da nova fábrica, da autoria do arquiteto José da Costa Vilaça (discípulo de João de Moura Coutinho, um dos autores do Teatro Circo), cujas feições mantiveram-se até a atualidade.

Não obstante, resultado de um conjunto de transformações operadas, importa referir que as mesmas não se cingiram somente às áreas de produção, uma vez que as novas instalações contemplavam um consultório médico, uma cozinha, um refeitório, uma cantina, garagens e oficina, uma oficina tipográfica - onde eram produzidos os rótulos e as embalagens - uma carpintaria e serralharia - onde eram produzidas as caixas para transportar o sabão - um atelier de costura - dedicado à indumentária dos colaboradores - uma creche para crianças até aos 5 anos de idade, uma mercearia, uma biblioteca, um salão de festas, uma sala de teatro com engenho de projeção de cinema, um núcleo de futebol, um logradouro com jardim com árvores e uma esplanada.

Em 1928, o capital da firma cifrava-se em 1.200 contos, os quais poderiam, se necessário, ser elevados até 2.000 contos. 

No segundo quartel do século XX a Fábrica Confiança dedicava os seus esforços no aperfeiçoamento dos seus produtos, de forma a ombrear com os seus concorrentes do estrangeiro. Nesse período saíam da firma mensalmente cerca de 8.000 caixas de sabão, de sabonetes por metade, eventualmente, do consumo do país. Não obstante, a capacidade de produção nessa época poderia ser elevada ao dobro.

O segredo para o sucesso de qualquer indústria é sem sombra de dúvidas a capacidade em acompanhar os avanços da ciência e da técnica, pelo que, naquela época, a Fábrica Confiança gozava das mais modernas máquinas e do savoir-faire.

Naquele período, o jornalista Manuel Araújo, em entrevista aos proprietários, vislumbra as instalações da firma, descrevendo-as com natural encanto.

O jornalista prossegue, referindo que, “voltamos, depois, à direita. Muitas salas, umas após outras, aparecem na nossa frente. São armazens de sabonetes, que se vêem aos milhares, oficinas de acabamento e expedição”.

O jornalista, embrenhado nesse éden engenhoso e perfumado, prossegue com o seu meticuloso trabalho - o de dar corpo à memória - à História. 

No que se refere aos mercados da Fábrica Confiança, particularmente, na comercialização de sabão, as regiões do Minho, do Douro e de Trás-os-Montes constituíam-se as mais importantes. O mercado de sabonetes beneficiava de uma abrangência nacional, incluindo as regiões insulares. 

A propósito do comércio para as colónias “(...) as dificuldades de transferências e a enorme crise porque passa o comércio de ali não nos permite pensar nelas. É um facto profundamente lastimável e para o qual os nossos governantes precisam de olhar. São valores consideráveis que todos estamos a perder”.

A Fábrica Confiança cingia-se a comercializar os seus produtos apenas no norte do país, uma vez que expedir os mesmos produtos para o sul incrementaria sobremaneira os preços por via dos transportes, obrigando a firma a praticar valores fora de mercado.

Entretanto, o jornalista Manuel Araújo, dá nota de mais um melhoramento.

A firma contava com uma força de trabalho de 80 colaboradores, de ambos os sexos, os quais representavam um encargo anual de 200 contos.

A Fábrica Confiança demonstrava uma preocupação muito grande para com os seus colaboradores, na medida em que lhes proporcionava um conjunto de benefícios e regalias que, na época, ou até mesmo na hodiernidade, são difíceis de encontrar.

O jornalista realça os escritórios, que se localizavam na parte central da frontaria, onde verificou a presença de muitos colaboradores, de muitas mesas, de muito trabalho, referindo que “o asseio que se nota em toda a fábrica é mais que natural - é exemplar”.

A Fábrica Confiança via-se a braços com um manancial de despesas que a sufocavam. Não se incluindo nesse rol os salários dos colaboradores, mas sim o peso das matérias-primas que importavam, particularmente, devido às elevadíssimas contribuições e impostos que pagavam à Câmara Municipal de Braga e ao Estado - cifrando-se em cerca de 100 contos anuais.

Essa é de facto uma evidência que impacta o desenvolvimento comercial e industrial do nosso país e, ao que tudo indica, vem de longa data, pois, o nosso Estado sempre se mostrou obeso. Porém, falta saber a quem essas gorduras beneficiam efetivamente, uma vez que as empresas não são de maneira alguma, subsidiárias desse sorvedouro de recursos.

O jornalista interroga o proprietário, colocando-lhe a seguinte questão: “São partidários do imposto sobre todos os artigos fabricados em Portugal que se apresentem com rótulo estrangeiro?”.

A Fábrica Confiança representa um marco económico e social de profunda importância para a cidade de Braga e para o país. 

Após mais de uma centúria de labor, com especial sucesso no período que contempla o Estado Novo, a Fábrica Confiança não soube lidar com a viragem de paradigma, imposta pelo 25 de abril de 1974, e a consequente abertura à concorrência de mercados estrangeiros (globalização), sobretudo nos anos 80 e 90, entrando progressivamente em declínio. Aquela que chegou a empregar cerca de uma centena e meia de trabalhadores, quando próxima do seu epílogo, excedia pouco mais de uma vintena.

Em 2002, padecendo de graves problemas financeiros, a administração decidiu vender o complexo fabril, deslocalizando a produção para as novas instalações na freguesia de Sobreposta, numa tentativa de evitar o inevitável. 

Em 2005, a Fábrica Confiança encerrou definitivamente a sua atividade, o antigo complexo fabril na Rua Nova de Santa Cruz, ao contrário do que seria expectável após a aquisição pelos novos proprietários, manteve-se abandonado ao longo de muitos anos.

Em 2012, a Câmara Municipal de Braga adquiriu o edifício primitivo, determinando que as antigas instalações da Fábrica Confiança na Rua Nova de Santa Cruz se iriam converter numa residência universitária, estando em curso tal empreendimento.

Ao fim e ao cabo, restará para memória presente e futura o espaço museológico que ficará salvaguardado nesse edifício histórico e emblemático da nossa cidade.

A Fábrica Confiança foi classificada em 2020 como Monumento de Interesse Público, conforme emanado pela Portaria n.º 611/2020.

A Fábrica Confiança, caso ainda laborasse, completaria este ano 132 anos desde a sua fundação. Lamentavelmente testemunhamos no nosso país o desaparecimento de grandes indústrias nacionais, vislumbrando muitos desses lugares serem ocupados por empresas estrangeiras (multinacionais) beneficiárias de um conjunto de medidas que o Estado coloca ao seu dispor. Todavia, muitas dessas empresas, poucos valores acrescentados deixam ao país, abalando assim que as condições se manifestem menos abonatórias, como os custos com a mão de obra, ou o fim de eventuais isenções fiscais.

Urge valorizar o que é nosso, resgatando o arrojo e a coragem de outros tempos, sob pena de andarmos quase sempre pendurados na cauda da Europa.

Portugal necessita urgentemente de apostar de forma convicta e efetiva na sua capacidade inventiva e produtiva - regenerando a sua economia e, consequentemente, abrindo novos horizontes de futuro para os seus cidadãos. Urge, por essa via, repensar a reindustrialização do país.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Apresentação da revista “O Anunciador das Feiras Novas” 2026


Em 1947, Augusto Amorim de Castro e Sousa deu corpo a uma “Publicação Anual de Propaganda”, denominando-a de “O Anunciador das Feiras Novas”, auspiciando divulgar as “Feiras Novas” de Ponte de Lima e, por essa via, contribuir para o desenvolvimento do concelho. O primeiro número contou com 36 páginas, onde naturalmente constava publicidade destinada aos seus patrocinadores.

Em 1948, saiu do prelo o segundo número do “Anunciador das Feiras Novas”, todavia, a conjuntura económica daquela época impediu Augusto Amorim de Castro e Sousa de dar continuidade a tão arrojado projeto - (a Europa, particularmente, encontrava-se no rescaldo da II Grande Guerra Mundial).

No entanto, quiseram os Deuses que a revista voltasse a ver a luz do dia, o que sucedeu em 1984 - em II Série - pela mão do insigne Sr. Alberto do Vale Loureiro, discípulo de Augusto Amorim de Castro e Sousa nas artes gráficas. Porém, Alberto do Vale Loureiro decidiu conferir um novo fadário para a revista “O Anunciador das Feiras Novas”, que passou a ser uma “Publicação Anual de Informação, Cultura, Turismo e Artes Limianas”.

“O Anunciador das Feiras Novas”, hodiernamente com propriedade, administração e edição da Associação Empresarial de Ponte de Lima, continua a ser publicada sob a coordenação do Excelentíssimo Sr. Alberto do Vale Loureiro, que há mais de 40 anos demonstra de forma cabal o seu amor a Ponte de Lima, em cuja publicação se vertem as suas inestimáveis aptidões, não somente como coordenador, mas também como exímio e profícuo autor.

No passado dia 31 de julho de 2026, pelas 18 horas, ocorreu nas instalações da Associação Empresarial de Ponte de Lima a apresentação de mais uma edição da extraordinária revista “O Anunciador das Feiras Novas”, que vai no 43.º número da II Série.

“O Anunciador das Feiras Novas” afigura-se um verdadeiro repositório da memória coletiva limiana, retratando aspetos da sua etnografia, da sua História e das suas estórias. 

Não obstante, importa também relevar o 121.º aniversário da Associação Empresarial de Ponte de Lima - celebrado em simultâneo - entidade que permite a prosperidade de tão importante publicação - a quem felicitamos - não somente pelo seu contributo para a manutenção e desenvolvimento da cultura e da identidade limiana, mas também pelo seu importante papel agregador e promotor do tecido económico da região. Bem-haja!





segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Fábrica Pachancho: Memórias do património industrial de Braga   Neste breve artigo, evoca-se  António Gomes do Vale Peixoto (1890-1958), mai...