Património Industrial do Alto Minho:
Oportunidades perdidas
A região do Alto Minho não dedica o devido valor ao seu património industrial. Nos últimos anos têm surgido algumas iniciativas, pulverizadas aqui e ali, partindo sobretudo de Associações Culturais, como é o caso do Centro de Estudos Regionais de Viana do Castelo que, em 2023, juntamente com a Associação Portuguesa para o Património Industrial, promoveram o I Encontro Sobre o Património Industrial do Alto Minho - (ver programa aqui).
Ainda em 2023, a freguesia de Alvarães, em Viana do Castelo, inaugurou a Rota da Cerâmica. Tratou-se de um evento sobremaneira importante que visa dinamizar uma história rica associada à indústria cerâmica, particularmente, ao fabrico de telhas, contemplando os fornos telheiros bem como as próprias fábricas desativadas, como é o caso da Jerónimo Pereira Campos. Alvarães contempla um dos mais ricos coutos mineiros em caulino (barro branco), daí a sua longa história associada ao fabrico de produtos cerâmicos de elevadíssima qualidade.
A criação da Rota da Cerâmica reveste-se de particular relevo, atendendo ao potencial que representa para a dinamização económica e social da região, onde o turismo industrial se assume como uma verdadeira âncora.
Não obstante, o Minho, e o Alto Minho em particular, gozam de uma história secular associada aos engenhos hidráulicos - sejam moinhos para produção de farinha, sejam engenhos ligados ao setor das madeiras (serrações), sejam engenhos ligados à produção de azeite, em muitos casos valorizados e divulgados por Associações Culturais locais, ou por privados empreendedores, como é o caso dos Moinhos de Bade, em Cerdal, Valença do Minho e, em muito menor escala, pelas próprias autarquias.
Portugal, ao contrário de alguns países da Europa, como a Inglaterra, a França ou a Alemanha, não conheceu uma efetiva Revolução Industrial stricto sensu, quando muito, conheceu uma revolução industriosa, que se manifestou de forma aleatória pelo território nacional.
Todavia, apesar de tudo, Portugal contempla um vastíssimo e riquíssimo património industrial, inclusive na região do Alto Minho, uma das regiões que, até há bem poucos anos, era uma das mais subdesenvolvidas do país.
Não obstante, ainda que a região procure de forma progressiva e legitima a sua afirmação na economia nacional, não deixa de ser importante olhar para o futuro com os olhos postos no seu vasto património cultural.
Há, quanto a mim, entraves que condicionam sobremaneira os cidadãos que, pro bono, dedicam esforços diversos para valorizar esse património cultural.
As autarquias parecem padecer de insensibilidade, de incapacidade para valorizar o património industrial existente nos seus territórios. Essa realidade é subsidiada pela falta de equipas multidisciplinares, bem como pela falta de uma visão estratégica de médio e longo prazo.
Hodiernamente, a criação de sinergias é fundamental para fomentar a coesão territorial, pelo que o património industrial se afigura como elemento potenciador desse desiderato. Ao longo dos últimos anos são inúmeras as ações que encetei no sentido de envolver algumas autarquias na resolução de problemas ou iniciativas conexas com o nosso património industrial. Todavia, quer-me parecer que alguns autarcas e executivos, ao contrário do que proclamam, agem com desprezo e sobranceria, adiando reuniões, falhando a compromissos, etc., isso não pode suceder, sob pena de desacreditarmos nas entidades políticas que, de per si, são conotadas com a demagogia e a arrogância.
No decorrer dos últimos anos, questiono-me se vale a pena dedicar parte da minha vida a esta causa, uma vez que parece ser uma batalha inglória e perversa.
É, também, curiosa a forma como alguns autarcas se manifestam face a reptos que se lançam, cujo fim maior é o benefício coletivo. Porém, quiçá pela natureza que porventura os carateriza, julguem na sua pequenez que auspiciamos alguma espécie de contrapartida que não a própria satisfação pessoal.
Talvez sejamos pequenos devido aos horizontes curtos que projetamos, urge ver mais adiante, urge erguer Portugal e, um país sem uma dinâmica cultural forte, não pode esperar muito do porvir.
A condição sine qua non, é a mudança radical de paradigma, o diálogo franco e aberto, em nome do coletivo.
Não podemos continuar na mentira, como a mentira de 2017, que vaticinava a criação do Centro Interpretativo dedicado a Gustave Eiffel, em Viana do Castelo, ou as comunicações eletrónicas enviadas a várias autarquias da região, que se remetem ao silêncio.
Assim, não, são oportunidades que se perdem, e que naturalmente beneficiariam as comunidades - o coletivo - urge deixar de alimentar a indiferença, a altivez e a mentira, sob pena de vermos a crescer os velhos fantasmas do passado, que teimam em surgir em pleno século XXI, cuja responsabilidade recai, grosso modo, sob aqueles que nos “governam”.
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