Fábrica Confiança (Braga) 1894-2026:
Subsídios para a memória do nosso património industrial
A Fábrica Confiança foi fundada na Rua Nova de Santa Cruz, em 1894, por Manuel dos Santos Pereira e pelo seu cunhado, Rosalvo da Silva Almeida.
É surpreendente testemunhar o arrojo desses dois empreendedores, que naquela época eram muito jovens (um tinha 21 e o outro 26 anos), porém, não deixaram de abraçar um sonho que tornaram realidade, apesar de nenhum deles ter experiência no setor.
Ao longo do século XIX e até meados do século XX, a freguesia de S. Victor detinha entre a Rua do Taxa e a Rua Nova de Santa Cruz, o que se poderia denominar de “cinturão industrial” da cidade de Braga que, grosso modo, contemplava esse eixo. Ali existiam e laboravam inúmeras indústrias, umas mais mecanizadas do que outras, destacando-se, por exemplo, a Social Bracarense, a Taxa, a Industrial e, um pouco mais afastada desse eixo, a também afamada Pachancho. Esta seria a primeira fase de industrialização da cidade de Braga, que mantinha no seu portfólio algumas indústrias de elevado gabarito, de prestígio nacional e internacional.
A Fábrica Confiança, hodiernamente assim denominada, designava-se “Saboaria e Perfumaria Confiança”.
Os fundadores investiram no novo projeto uns módicos 10 contos de reis, dando início à produção de sabão, sabonetes e perfumarias. No alvor desse arrojado projeto eram fabricadas 1000 caixas de sabão por mês.
A Fábrica Confiança seguia no bom caminho e, anos mais tarde, na viragem da década de 10 para a década de 20 do século XX, impunha-se a construção de um novo complexo fabril, cuja finalidade passava por responder às exigências de um novo paradigma de desenvolvimento que ambos os fundadores preconizavam. Nessa esteira, os dois sócios decidiram agremiar-se ao amigo e capitalista Domingos José Afonso, que dá à firma um ímpeto imprescindível, pelo que, em 1920, deliberaram constituir uma Sociedade Anónima, acreditando a Fábrica Confiança.
No ano seguinte, na senda de uma nova era, os edifícios primitivos foram adaptados e incorporados no projeto da nova fábrica, da autoria do arquiteto José da Costa Vilaça (discípulo de João de Moura Coutinho, um dos autores do Teatro Circo), cujas feições mantiveram-se até a atualidade.
Não obstante, resultado de um conjunto de transformações operadas, importa referir que as mesmas não se cingiram somente às áreas de produção, uma vez que as novas instalações contemplavam um consultório médico, uma cozinha, um refeitório, uma cantina, garagens e oficina, uma oficina tipográfica - onde eram produzidos os rótulos e as embalagens - uma carpintaria e serralharia - onde eram produzidas as caixas para transportar o sabão - um atelier de costura - dedicado à indumentária dos colaboradores - uma creche para crianças até aos 5 anos de idade, uma mercearia, uma biblioteca, um salão de festas, uma sala de teatro com engenho de projeção de cinema, um núcleo de futebol, um logradouro com jardim com árvores e uma esplanada.
Em 1928, o capital da firma cifrava-se em 1.200 contos, os quais poderiam, se necessário, ser elevados até 2.000 contos.
No segundo quartel do século XX a Fábrica Confiança dedicava os seus esforços no aperfeiçoamento dos seus produtos, de forma a ombrear com os seus concorrentes do estrangeiro. Nesse período saíam da firma mensalmente cerca de 8.000 caixas de sabão, de sabonetes por metade, eventualmente, do consumo do país. Não obstante, a capacidade de produção nessa época poderia ser elevada ao dobro.
O segredo para o sucesso de qualquer indústria é sem sombra de dúvidas a capacidade em acompanhar os avanços da ciência e da técnica, pelo que, naquela época, a Fábrica Confiança gozava das mais modernas máquinas e do savoir-faire.
Naquele período, o jornalista Manuel Araújo, em entrevista aos proprietários, vislumbra as instalações da firma, descrevendo-as com natural encanto.
O jornalista prossegue, referindo que, “voltamos, depois, à direita. Muitas salas, umas após outras, aparecem na nossa frente. São armazens de sabonetes, que se vêem aos milhares, oficinas de acabamento e expedição”.
O jornalista, embrenhado nesse éden engenhoso e perfumado, prossegue com o seu meticuloso trabalho - o de dar corpo à memória - à História.
No que se refere aos mercados da Fábrica Confiança, particularmente, na comercialização de sabão, as regiões do Minho, do Douro e de Trás-os-Montes constituíam-se as mais importantes. O mercado de sabonetes beneficiava de uma abrangência nacional, incluindo as regiões insulares.
A propósito do comércio para as colónias “(...) as dificuldades de transferências e a enorme crise porque passa o comércio de ali não nos permite pensar nelas. É um facto profundamente lastimável e para o qual os nossos governantes precisam de olhar. São valores consideráveis que todos estamos a perder”.
A Fábrica Confiança cingia-se a comercializar os seus produtos apenas no norte do país, uma vez que expedir os mesmos produtos para o sul incrementaria sobremaneira os preços por via dos transportes, obrigando a firma a praticar valores fora de mercado.
Entretanto, o jornalista Manuel Araújo, dá nota de mais um melhoramento.
A firma contava com uma força de trabalho de 80 colaboradores, de ambos os sexos, os quais representavam um encargo anual de 200 contos.
A Fábrica Confiança demonstrava uma preocupação muito grande para com os seus colaboradores, na medida em que lhes proporcionava um conjunto de benefícios e regalias que, na época, ou até mesmo na hodiernidade, são difíceis de encontrar.
O jornalista realça os escritórios, que se localizavam na parte central da frontaria, onde verificou a presença de muitos colaboradores, de muitas mesas, de muito trabalho, referindo que “o asseio que se nota em toda a fábrica é mais que natural - é exemplar”.
A Fábrica Confiança via-se a braços com um manancial de despesas que a sufocavam. Não se incluindo nesse rol os salários dos colaboradores, mas sim o peso das matérias-primas que importavam, particularmente, devido às elevadíssimas contribuições e impostos que pagavam à Câmara Municipal de Braga e ao Estado - cifrando-se em cerca de 100 contos anuais.
Essa é de facto uma evidência que impacta o desenvolvimento comercial e industrial do nosso país e, ao que tudo indica, vem de longa data, pois, o nosso Estado sempre se mostrou obeso. Porém, falta saber a quem essas gorduras beneficiam efetivamente, uma vez que as empresas não são de maneira alguma, subsidiárias desse sorvedouro de recursos.
O jornalista interroga o proprietário, colocando-lhe a seguinte questão: “São partidários do imposto sobre todos os artigos fabricados em Portugal que se apresentem com rótulo estrangeiro?”.
A Fábrica Confiança representa um marco económico e social de profunda importância para a cidade de Braga e para o país.
Após mais de uma centúria de labor, com especial sucesso no período que contempla o Estado Novo, a Fábrica Confiança não soube lidar com a viragem de paradigma, imposta pelo 25 de abril de 1974, e a consequente abertura à concorrência de mercados estrangeiros (globalização), sobretudo nos anos 80 e 90, entrando progressivamente em declínio. Aquela que chegou a empregar cerca de uma centena e meia de trabalhadores, quando próxima do seu epílogo, excedia pouco mais de uma vintena.
Em 2002, padecendo de graves problemas financeiros, a administração decidiu vender o complexo fabril, deslocalizando a produção para as novas instalações na freguesia de Sobreposta, numa tentativa de evitar o inevitável.
Em 2005, a Fábrica Confiança encerrou definitivamente a sua atividade, o antigo complexo fabril na Rua Nova de Santa Cruz, ao contrário do que seria expectável após a aquisição pelos novos proprietários, manteve-se abandonado ao longo de muitos anos.
Em 2012, a Câmara Municipal de Braga adquiriu o edifício primitivo, determinando que as antigas instalações da Fábrica Confiança na Rua Nova de Santa Cruz se iriam converter numa residência universitária, estando em curso tal empreendimento.
Ao fim e ao cabo, restará para memória presente e futura o espaço museológico que ficará salvaguardado nesse edifício histórico e emblemático da nossa cidade.
A Fábrica Confiança foi classificada em 2020 como Monumento de Interesse Público, conforme emanado pela Portaria n.º 611/2020.
A Fábrica Confiança, caso ainda laborasse, completaria este ano 132 anos desde a sua fundação. Lamentavelmente testemunhamos no nosso país o desaparecimento de grandes indústrias nacionais, vislumbrando muitos desses lugares serem ocupados por empresas estrangeiras (multinacionais) beneficiárias de um conjunto de medidas que o Estado coloca ao seu dispor. Todavia, muitas dessas empresas, poucos valores acrescentados deixam ao país, abalando assim que as condições se manifestem menos abonatórias, como os custos com a mão de obra, ou o fim de eventuais isenções fiscais.
Urge valorizar o que é nosso, resgatando o arrojo e a coragem de outros tempos, sob pena de andarmos quase sempre pendurados na cauda da Europa.
Portugal necessita urgentemente de apostar de forma convicta e efetiva na sua capacidade inventiva e produtiva - regenerando a sua economia e, consequentemente, abrindo novos horizontes de futuro para os seus cidadãos. Urge, por essa via, repensar a reindustrialização do país.
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